quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Sonhos Natalinos ....
Da janela eu podia ver o Castelo....
Flocos brancos voavam de sua torre ....
Era Sonho ....
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Ainda há a possibilidade de escrever Outras Histórias ..... ainda há ....
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Da quase Imortalidade ....
No Mundo da Imaginação a Vida tem gosto , som , gozo .... no mundo Humanamente Cotidiano a vida , em minúscula , segue sem gosto ....sem desejo .... por isso meu refúgio será sempre o mundo que os Escritores e Escritoras recriam em suas fantásticas Histórias .... aquele onde a Vida é em Maiúscula....
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Existe a quase Imortalidade ...e sua poesia .....
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Das Estradas e dos Fatos .....
E.... o Tempo trouxe algumas certezas .....
E... as Estradas bifurcaram ....
E... os Fatos eu toco com as mãos .... os sinto no Peito ....
A Vida não é mais o Sonho ....
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Quero pegar a estrada .....pra longe , longe daqui ...
Será Que Eu Vou Virar Bolor?
Arnaldo Baptista
Hoje eu percebi
Que venho me apegando às coisas
Materiais que me dão prazer
O que é isso, meu amor?
Será que eu vou morrer de dor
O que é isso, meu amor?
Será que eu vou virar bolor?
Venho me apegando ao passado
E em ter você ao meu lado
Não gosto do Alice Cooper
Onde é que está meu rock'n'roll?
Eu acho, eu vou voltar pra Cantareira
Venho me apagando aos meus sonhos
E à minha velha motocicleta
Não gosto do pessoal da Nasa
Cadê meu disco voador?
Onde é que está meu rock?
Onde é que está meu rock'n'roll?
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
O Divã .... ou dos ausentes .
Assim é , descobrimos que é hora de engordar a conta bancária dos analistas quando os amigos começam e se preocupar somente consigo ....
O telefone está tocando e a melodia do seu trim ecoa no pequeno mundo quadrado .... da janela a cidade úmida parece não parar .... e o Tempo nunca poderá ser contado em ponteiros e mecanismos que se esgotam.... nem os sentimentos ....
.....
Os divãs são muitos ..... as verdades ausentes .... assim como as pessoas ....
.....
"The dream is over"
.....
O telefone está tocando e a melodia do seu trim ecoa no pequeno mundo quadrado .... da janela a cidade úmida parece não parar .... e o Tempo nunca poderá ser contado em ponteiros e mecanismos que se esgotam.... nem os sentimentos ....
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Os divãs são muitos ..... as verdades ausentes .... assim como as pessoas ....
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"The dream is over"
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Histórias Alheias ....ou da " Inveja " ....
Quando acompanhamos Histórias alheias é inevitável ....começamos a pensar na própria vida ....
Assim com os romances , assim com as películas , assim com viagens ....
E por que será que eu gostaria de estar em qualquer outro lugar que não esse que estou agora ....
Por que será ?...............................................
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Itte rasshai, Shi. Nazarian....
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Ska
Os Paralamas do Sucesso
Composição: Herbert Vianna
A vida não é filme, você não entendeu
Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu
Sabendo o que passava no seu coração
Se o que você fazia era certo ou não
E a mocinha se perdeu olhando o Sol se por
Que final romântico, morrer de amor
Relembrando na janela tudo que viveu
Fingindo não ver os erros que cometeu
E assim
Tanto faz
Se o herói não aparecer
E daí
Nada mais
A vida não é filme, você não entendeu
De todos os seus sonhos não restou nenhum
Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu
E só você não viu, não era filme algum
E a mocinha se perdeu olhando o Sol se por
Que final romântico, morrer de amor
Relembrando na janela tudo que viveu
Fingindo não ver os erros que cometeu
E assim
Tanto faz
Se o herói não aparecer
E daí
Nada mais
E assim
Tanto faz
Se o herói não aparecer
E daí
Nada mais.
domingo, 24 de outubro de 2010
Do Coletivo ..
Pra onde eu vou
Venha também
Mutantes
.........
Eu queria encontrar quem acreditasse no Coletivo ....
O Individualismo é a Religião do novo século ....
E eu não quero ser assim ....
Por isso meu olhar está no que foi ....
A História é meu alimento ... ela é que traz a Esperança...
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sábado, 23 de outubro de 2010
Do gosto do vento ....
Se eu tivesse vivido em outro tempo ....e tivesse conhecido alguns anjos ....
Se eu tivesse um àcido na bolsa ....se ...
Eu subiria no mais alto prédio de BHCity ... voaria pra sentir o gosto do vento ...
Seu eu não fosse covarde ...
Eu sentiria o gosto do vento ...
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Crooked Roads.......
Sem bilinguismo .....
DESISTO !.....
All You Need Is Love
The Beatles
Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love
There's nothing you can do that can't be done
Nothing you can sing that can't be sung
Nothing you can say, but you can learn how the play the game
It's easy
There's nothing you can make that can't be made
No one you can save that can't be saved
Nothing you can do, but you can learn how to be you in time
It's easy
All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need
Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love
All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need
There's nothing you can know that isn't known
Nothing you can see that isn't shown
Nowhere you can be that isn't where you're meant to be
It's easy
All you need is love
Love is all you need
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Da vida nas alturas ...
Ela nasceu assim ....tinha asas ...como não usá-las ... quiseram escondê-las ...como? se quem tem asas quer conhecer os céus .... criou afeição ....é natural, que o coração sinta-se aconchegado no Amor ... mas se há asas ... há desejo ...de voar .... as estações dizem para onde ir ... as asas obedecem .... e embora o coração sinta saudades .... as asas pedem o que natural de seu ser...
Iep!.....
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Do Dissolver-se ......
" Estava encantado com o mundo da música de rock - o modo como os cantores podiam gritar sobre o bem e o mal , se proclamar anjos ou demônios , enquanto os mortais se levantavam para aplaudir . Às vezes, pareciam a pura personificação da loucura . E, no entanto, era de tecnologia fascinante a complexidade de sua apresentação .Era selvagem e cerebral , de uma maneira que não creio que o mundo tivesse algum dia visto em épocas passadas .
Claro, era metafórico o delírio . Nenhum deles acreditava em anjos ou demônios , por melhor que assumissem seus papéis . ( ... )
No entanto, eram inteiramente novos os extremos a que chegavam, a brutalidade e a provocação - e a maneira como eram aceitos pelo mundo , dos mais ricos aos mais pobres .
Havia também algo de vampiresco na música de rock . Ela deveria soar sobrenatural mesmo para aqueles que não acreditavam no sobrenatural . Refiro-me ao modo como a eletricidade podia sustentar uma nota para sempre ; ao modo como harmonias podiam ser sobrepostas a outras até você sentir-se dissolvendo-se no som . De tão terrivelmente eloquente que era essa música . O mundo não tinha visto algo semelhante antes .
( O Vampiro Lestat - Anne Rice )
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Na madrugada sem vento estendo minha mão alva e toco Histórias na estante empoeirada ... sinto o pulsar das palavras que sustentam meus Sonhos ... quando sinto, em meu toque, essa textura, meu peito sente veracidade na Imortalidade ... um morcego voa , passa pela janela do quarto , seu grito agudo é melodia que preenche o mundo escuro .... a noite ouve as notas dedilhadas nas cordas metálicas ....
Há esperança ... do Beijo e seu gosto... doce ....
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domingo, 19 de setembro de 2010
Dos dias de sempre.....
Em algum ponto deste ilusório universo existe o desequilíbrio que explica o equilíbrio .... ( ? )
Ando lendo os Físicos do Século XX e o mundo ganha ares assustadores ...
Costuro meu par de asas ...vou voando ... até Bibliotecas antigas pra conversar com os Alquimistas ... quem sabe há um elixir escondido nas palavras escritas em línguas perdidas no tempo imaginário ... (? )
Ilusão .... átomos , formas ... Poeira ...
Não há verdades ... Há especulações ... infindáveis ...
Um " Mago " contemporâneo arrisca tornar a Arte a chave que abre as portas de nossa limitada percepção ... ainda é possível acreditar que temos percepção ... ( ? )
Costuro meu par de asas porque o vento é minha única idéia de algo " concreto " ...
Voar é preciso .....
Ando lendo os Físicos do Século XX e o mundo ganha ares assustadores ...
Costuro meu par de asas ...vou voando ... até Bibliotecas antigas pra conversar com os Alquimistas ... quem sabe há um elixir escondido nas palavras escritas em línguas perdidas no tempo imaginário ... (? )
Ilusão .... átomos , formas ... Poeira ...
Não há verdades ... Há especulações ... infindáveis ...
Um " Mago " contemporâneo arrisca tornar a Arte a chave que abre as portas de nossa limitada percepção ... ainda é possível acreditar que temos percepção ... ( ? )
Costuro meu par de asas porque o vento é minha única idéia de algo " concreto " ...
Voar é preciso .....
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Do Baú I...
CAMA DE GATO
Ela caiu ali em meio ás árvores do parque . Não sentiu a queda. Não sabia ao certo se sua jornada teve início em uma galáxia com nome de deuses esquecidos , ou se viera de algum ponto mesmo da branca massa cósmica. Caíra , era um fato , aberta . O gramado do parque central da cidade estava muito verde em decorrência da chuva que resolvera , para a alegria dos seres clorofilados , fazer morada por ali . Caíra , numa posição muito diferente da qual estava acostumada . A queda naquela posição , meio que ao avesso trazia uma terrível e estranha constatação : sua existência era instável, como bailarinas na corda bamba . Os olhos que passavam pela avenida vez por outra a encarava , seu tom rosa era agradável às damas , mas todavia nem tanto agora depois das investidas do tempo , não estava isenta de sofrer com isso . Desbotara , em seu rosa e em seu tom azul . Quis pensar que não gostava de estar ali , exposta , aberta a todos os olhos . Mas não havia outro jeito , era vulnerável , isso era um fato . Não era capaz de mudar aquela situação . Não tinha vontade própria , se perdera da mão que lhe dava segurança , equilíbrio . Caíra ali , bem ali , entre as árvores do parque e não sabia a quanto tempo , provavelmente na última chuva , sim na última chuva era o mais provável . Mas quanto tempo fazia isso ? Um vento soprou . Quase pensou ser ele o responsável por estar ali . Mas afinal isso não tinha tanta importância agora . Alguma coisa se aproximava caminhando lentamente sobre as folhas úmidas que cobriam o chão do parque. Parecia negra e quase flutuava em seu leve andar . Não sentiu medo, afinal não tinha mesmo sensações .
Ele era acostumado a caminhar por ali , era sua casa .Não se lembrava ao certo se havia nascido ali entre as árvores do parque ou se fora levado para lá quando ainda era pequeno e indesejado . Reconhecia-se como parte daquele lugar , não pelo furo em sua orelha direita , mas pelos companheiros que junto com ele buscava sobreviver ali . O sol aparecia ,sem muita fúria , depois de muitos dias ausente . Podia sentir a umidade da terra nas folhas mortas espalhadas pela grama . Olhou através das grades que circundavam o parque e delimitavam seu território as pessoas que caminhavam apressadas . Notava que algumas estavam felizes , provavelmente por poderem caminhar sem se molhar . Outras não sorriam , nem choravam , eram as do tipo conformadas , por isso tanto o sol quanto a chuva não as afetava . Notava que vez por outra passava alguém bem triste , provavelmente porque gostava da chuva que não caia por agora . Abandonou seu posto de observação ao ver ali aquela estranha coisa caída entre as árvores . Aproximou-se com cautela sem saber ao certo se seria prudente chegar tão perto assim . Tocou de leve . Não houve reação . Deve ser inanimada pensou . Arriscou pular , nenhuma reação . Escolheu então ficar ali naquela criatura rosa para tomar seu banho de sol . Começou a limpeza de seu pêlo que ficou mais negro . Preto , era seu nome .Um nome não escolhido por ele , mas pelas pessoas que frequentavam o parque . Resolvera aceitá-lo porque era o preferido das pessoas pequenas que frequentavam as alamedas do parque em especial aos domingos . Ele gostava das pessoas pequenas ,não todas , mas uma boa parte delas . Gostou de sua nova cama , mantinha seu pêlo seco e quente e ele poderia ficar ali toda a tarde , ao sol . Mas o vento não tardou a trazer de volta a chuva para a cidade e ele precisava buscar um abrigo . Mas teve uma idéia . Enroscou-se em sua nova cama rosa .
Ela não sabia ao certo quem era. Como os filósofos que nunca arriscam colocar pontos finais caminhava pela vida . Passou pela movimentada avenida de sua cidade . A chuva voltara a cair e o ar úmido deixava um gosto de poesia e cores . A poesia escrita pelos amantes do choro prateado dos anjos e as cores por conta dos multicores guarda – chuvas . Ela olhou pelas grades do parque . Parou na cena um tanto quanto curiosa . Um gato negro enroscado em uma sombrinha rosa. É uma inusitada cama de gato, pensou . Sorriu para eles , para a chuva e continuou a caminhar .
Preto ficou ali no aconchego de sua nova cama .
Ela deixou que o estranho ser ali ficasse , e quase pensou que isso era bom .
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Sombrinhas sentem frio ?
Gatos tem medo de chuva ?
domingo, 5 de setembro de 2010
Friends ....
Para o amigo que me ensinou que
a História é divertida e saborosa :
C.M.D.
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Das Estações
ou
Da Impossibilidade dos Acasos
Chego a estação do metrô , mais uma madrugada .
….
Lembro do dia em que desci naquela estação de trem no meio do nada. Era fim de tarde de Outono e o céu avermelhado anunciava a noite que seria fria . Eu não sabia ao certo porque fui ali , apesar de ter reservado um quarto de pensão . Mas talvez soubesse , queria ficar só , coisas de crise depressiva , constante , mal da contemporaneidade . Tu saberia disso por mim. Naquela estação , deturpando a tendência de acharmos certos encontros mero acaso , tu esperava alguém .
…
O trem seguiu . Eu olhei a estação emoldurada entre montanhas verdes . Uma estrada de terra levava ao vilarejo próximo , eu sabia disso porque havia impresso o mapa pelo Google Maps . Achei estranho tu ali sentado . Imaginei que esperava o trem . Mas tu não entrou nele . Apertei meu casaco vermelho e comecei a descer as escadas da estação , não estava disposta a conversar . Não sei ao certo porque , mas , fiquei preocupada . O próximo trem passaria somente em dois dias . Talvez tu não soubesse .
…
-Olá . Não sei se sabe , o próximo trem só virá daqui a dois dias .
Tu tirou o capuz que compunha a capa de lã cinza que usava deixando aparecer cabelos negros lisos e olhos que sorriam como seus lábios .
-Eu espero o trem que vai pro outro lado, mas perdi minha caderneta de horários . Tenho boa memória para Histórias , mas para números não .
Estranhei tua fala, olhei para o outro lado da estação .
-Não há trilhos do outro lado .
-Pode ser que eu esteja na estação errada ….mas é que …
“ Definitivamente eu não devia ter parado pra conversar com esse cara “ , pensei .
-Ok. Tudo bem então. Vou indo . Tchau.
…
Desci as escadas e peguei a estrada de terra . Teria que caminhar um pouco , era melhor apressar o passo já que a lua cheia já desenhava contornos pálidos no céu . Havia muitas árvores frutíferas ao longo do caminho e foi sentado embaixo de uma macieira que eu te vi de novo .
-Olá ! Tu disse .
Achei esquisito tu ter chegado ali antes de mim … provavelmente deveria conhecer algum atalho , embora atalhos por ali fossem um tanto quanto improváveis . Notei que a estrada bifurcava numa encruzilhada , havia uma tabuleta indicando o vilarejo para onde eu estava indo e uma outra com um nome que eu não conseguia ler .
- Althein .
Tu levantou no momento exato que uma maçã despencava e caia sobre a pedra onde estava sentado . Ficou ao meu lado .
-Obrigado . Tu é guia desta região ?
-Não, não sou guia .
-Como sabe o que está escrito ali ? Não dá pra ler .
Tu caminhou até a tabuleta e soletrou : A L T H E I N .
-Não consegue ler isso ?
-Não . E acho que tu acabou de inventar esse nome . Não há nada escrito aí . E tem outra , não lembro de ter visto algum outro vilarejo próximo ao que estou indo . Mas tudo bem . Eu sigo por aqui . Até mais .
-Posso ir contigo ?
-Pra onde tu tá indo ? Perguntei .
-Não sei.
-Se não sabe onde vais é melhor pensar sobre . Comecei a caminhar . Tu alcançou meu passo .
-Já pensei . Se não há lugar para onde ir qualquer lugar está bom .
Disse isso sorrindo como se fizesse todo o sentido do mundo , eu pensei que tu era uma cara muito sarcástico , embora , não sei ao certo porque achei engraçado o teu jeito de pensar . Tu queria mesmo seguir comigo , e eu não tinha como fugir disso .
…
A estrada pareceu bem mais longa que a indicada pelo mapa . Caminhei com pressa . Queria tirar as botas , jogar a mochila num canto , tomar um banho , dormir . Tu não deixou que eu prosseguisse com meu plano de não conversar . Perguntou-me coisas, coisas, coisas . Algumas eu respondia , outras não . Comecei a reparar nos teus modos , na tua forma de falar . Fiz algumas perguntas também e as respostas foram estranhas , tipo sobre comidas fumegantes que eram servidas nos “ restaurantes” , na verdade a palavra que tu usava era estalagem , de sua cidade e que não queimavam a língua , cervejas com sabor de cafeína mentolada , roupas tecidas com fios de memórias . Reparei na tua vestimenta . O casaco que vestia , e eu pensei ser cinza , na verdade era de uma cor que eu não conseguia definir por comparação , lembro que pensei em livros antigos , aqueles feitos de tiras de tecido , olhando mais perto pude ver coisas escritas em línguas que eu não conhecia , ele cobria todo seu corpo deixando aparecer somente teus sapatos , que eram bem diferentes também ,pareciam ter saído das mãos de um artesão medieval , eu pensei assim , por lembrar das visitas em museus nos tempos do colegial .
…
Seguimos e eu deixei de acreditar em mapas , definitivamente . Alcançamos a entrada do vilarejo quando as estrelas começavam a montar rotas de fuga no céu . A lua cheia era nossa lanterna . Ao lado da placa de boas vindas havia uma casa que parecia abandonada, de bela arquitetura , mas com ares que só o tempo e o descuido poderiam dar .
-Vamos entrar ? Tu sugeriu .
Eu achando bem estranha tua proposta …
-Acho melhor não , vou seguir . Há uma pensão esperando por mim
( eu acho ) , com água quente e cama .
Ao terminar de falar isso notei que tua fisionomia modificou . Ficou séria . Não sei ao certo porque mas não senti medo . Havia em teu semblante um misto de pesar , nostalgia e esperança .
-Eu entro e vejo como tudo está e te chamo – Tu disse .
-Acho melhor seguir . Porque tu não vem comigo e passa a noite lá também .
-Eu não posso prosseguir , não posso entrar neste vilarejo e preciso te entregar algo antes de partir .
-Entregar algo …?...
Minha pergunta ficou bailando no ar . Tu entrou na casa . E eu olhando as estrelas , não sei ao certo porque , decidi te esperar . Um meteoro cruzava a atmosfera e eu cheguei a pensar que em algum lugar deste planetinha uma cratera se abriria para receber uma dama em trajes prateados . Tua voz ecoou pela estrada.
-Pode entrar .
…
Pelas janelas agora eu via um tom amarelado que indicava ter luz dentro dela . Tu teria velas nos bolsos ? Quando entrei tive a sensação que havia mais coisas entre o céu e a terra que minha vã filosofia poderia imaginar . Havia velas espalhadas em candelabros antigos por toda a sala que era grande , bem grande , lembrava um café, um cabaré , ou sei lá o que. Havia um pequeno palco ao fundo e cortinas vermelhas pendiam do teto . Um cheiro adocicado no ar , pequenas mesas com cadeiras em madeira , um balcão com inúmeras garrafas cheias de líquidos coloridos , potes com estranhos grãos e outras coisas que eu poderia comparar a bombons ou guloseimas , mas que na verdade eram diferentes de tudo o que eu já havia visto . Uma melodia ecoava no ar , algo parecido com ….bem, não sei . Tu estava do lado de dentro do balcão e preparava algo numa taça , uma fumaça avermelhada saía dela .
-Que lugar é esse ?!
-O que lhe parece ?
-Não sei . Um café?... um teatro antigo ?... um cabaré ?...
-Na verdade eu nunca dei nome a esse lugar. Prefiro assim porque dessa forma cada visitante pode dar-lhe o nome que melhor convém .
-Isso é seu ?
-As vezes sim , as vezes não . Passo longos tempos sem vir aqui.Até mesmo esqueci qual foi a última vez que estive aqui .
-Eu não estou entendendo . ..
…
Tu colocou a taça no balcão e preparou outra .Sentou-se a meu lado, propôs um brinde e começou a beber . Eu esperei para ver se a fumaça avermelhada parava de evaporar .Tu disse que ela não pararia até que a última gota fosse bebida . Arrisquei … era delicioso , um delicioso um tanto quanto difícil de ser definido . Parecia um café , mas com alguma coisa a mais , não como avelã , ou chocolate, ou menta.Quando terminei a fumaça não mais existia e o sabor permaneceu em minha boca , pelo que lembro , por muito tempo .
…
-O que é isso . È Kopi Luwack? Perguntei .
-Celoaffe.
-Celo... o quê ?
Tu apontou para um pote cheio de grãos dourados . E minha fisionomia provavelmente era uma enorme interrogação . Tu começou a gargalhar , creio, achando graça da minha “ ignorância “ . Nunca havia ouvido falar daqueles grãos . Meu pequeno café , começava a servir algumas especiarias , algumas que eu estava conhecendo através de conversas pela rede mundial com outros baristas .Não era nada fácil ter um café naquela cidade tão transbordante de Histórias , muita concorrência , apesar de tentar receitas exóticas , elas nem sempre agradavam aos fregueses . Os amigos no entanto sempre se deliciavam com elas ...o que eu não entendia .
- O que é Kopi Luwak?
Tua pergunta fez com que eu voltasse de minhas divagações . Eu havia “ fugido “ da cidade para tentar encontrar inspiração para novas receitas .
-É um café raro . Tu nunca ouviu falar ?
-Talvez ...sim , não sei . Como é o gosto dele .
-Ainda não sei . De onde vem esses grãos?
-De um lugar bem distante daqui .
-Tu vende ?
-Não .
-Exclusividade ?!...
-Não .
-Não entendi!
-Não entendeu porque eu ainda não expliquei .
…
Tive a impressão que já era alta madrugada pois lá fora o bréu era mais intenso . Olhei em meu celular e achei estranho, quando entrei na casa era 19:00 e ainda continuava a ser 19:00 . Provavelmente o relógio havia parado de funcionar , pensei .
…
Tu caminhou até um pequeno armário que ficava próximo ao palco . Tirou de dentro dele um livro e voltou a sentar a meu lado . Colocou o livro sobre o balcão . Notei que a capa era era de couro curtido com letras queimadas . Eu não sabia lê-las .
-È teu . Tu disse .
Peguei o livro e abri . Era um “ ótimo” presente ...um livro antigo numa língua que eu desconhecia .
-Obrigado , mas não sei ler o que está escrito . É algum dialeto da região ?
-Filinelguaca.
-Hã!... Interessante .
Eu havia aprendido esta tática com um velho amigo , ele sempre dizia: “ quando tu não entender o que está sendo falado diga interessante assim a pessoa que fala não se sentirá ofendida ou desconcertada por falar de um assunto não compreensível e tu não assumirá o papel de ignorante “.Era uma tática social bem aplicável naquele momento . Tu sorriu como se adivinhasse meu pensamento , disse :
-Não se preocupe . Em breve tu conseguirá ler . É um livro de receitas , muito , muito antigo .
Neste momento , tu começou de fato a História .
…
-Eu estava te esperando na estação faz alguns dias. Quase pensei ter vindo para a estação errada , mas não , só havia chegado um pouco antes da hora . Três dias . Vim até aqui e dei um ajeitada para te receber . Tenho de partir antes que a madrugada termine . Aquele pote de Celoaffe é teu também e não se preocupe quando ele terminar vou providenciar para que haja reposição . Se quiser pode dormir aqui esta noite e procurar a estalagem amanhã já que o trem só volta mesmo daqui a dois dias .
Eu olhava em teus olhos enquanto falava tentando encontrar ali alguma explicação lógica para tua conversa .Será que tu era um maluco beleza ou um extraterrestre , ou sei lá ...
-Eu não estou entendendo tudo isso . Quem é tu afinal ?
Tu sorriu e disse :
-Não se preocupe com nomes . Nomes não dizem o que somos. Já tive tantos que mal consigo lembrar qual foi o último . Vamos nos encontrar outras vezes .Se quiser crie um nome para mim , se isso te ajuda , mas pense , sempre se reconhece um amigo ,independente do tempo que passe , ou das estradas que sigam .
-Ok. Tu disse que estava esperando por mim . Como sabia que eu viria para cá ? Eu não disse nada a ninguém .
Tu remexeu o bolso do casaco e tirou dele um caderno “ olhe consegui encontrá-lo !” . Eu tive a impressão que dos bolsos de teu casaco poderia sair qualquer coisa . Abriu o caderno e leu meu nome e nome da estação de trem onde desci, virou triunfante e disse :
-Viu esta aqui . Não erro porque minha memória está grafada .
Tu tocou na mecha de cabelos vermelhos que sempre caia sobre meu olhos esquerdo e falou :
-Foi muito bom te conhecer . Agora que nos tornamos amigos fica mais simples te encontrar . Adormeça , descanse . Desejo é que tudo seja saboroso , sempre .
…
Quando tu deixou a casa o sono tomou conta de meus sentidos , como se aquele café fosse o mais potente dos calmantes . Adormeci .
…
Um sol amarelado entrava pela janela de vidros quebrados . Eu acordei com a brisa que trazia o amanhecer . Estava no chão com minha mochila como travesseiro . Olhei a volta e tudo que havia antes que eu adormecesse não estava mais ali . A sala era poeira , restos de madeira queimada , cacos de espelhos . Mas para minha surpresa , duas coisas ainda estavam ali. O pote com os grãos dourados e o livro . Peguei o livro e notei que a espessura havia mudado . Abri . Havia uma página escrita na língua Filin...Filinelguaca e outra em Francês , todo o livro estava assim . Lembrei da tua promessa , que eu conseguiria lê-lo .
….
Voltei dois dias depois para a vida de “ sempre “ . O livro de receitas foi o ponto de partida para o novo cardápio de meu café . A especialidade do Petits Plaisirs era agora preparada com os grãos dourados e era um verdadeiro sucesso entre os frequentadores. Vez por outra uma transportadora deixava na porta da cafeteria , sempre pela manhã , potes com os grãos dourados . Um dia anotei a placa do furgão antes que ele saísse em disparada. Tentei encontrá-lo pelo Google , sem sucesso . Por fim desisti .
…
A estação do metrô deserta como sempre.
Escolho sempre o mesmo banco. Sento ali para tocar minha gaita. Faço isso nos últimos cinco anos ,depois que fecho o Petits , por volta das três da madrugada. Algumas pessoas deixam moedas perto de minha mochila , provavelmente pensam que eu toco para pedir trocados . Mas não . Os negócios vão bem e dinheiro não tem sido problema . As crises depressivas , voltam ,passam ,como sempre . Sei que não se pode ter tudo . Eu sempre pego as moedas e deixo para aquele senhor cego que carrega sua antiga vitrola e coloca discos de vinil para rodar enquanto as pessoas correm pelas escadas para alcançar os trens que partem . Estou procurando uma nova trilha para tocar no café . Lembrei daquela música que tocava naquela casa-café . Acho que nunca escutei nada parecido com ela . Senti saudade de tu Lofe. Foi esse o nome que lhe dei e espero que tu goste dele . Quando nos encontrarmos de novo eu te conto e tenho também outras Histórias para contar . O trem passou no mesmo e exato momento de todos os dias. Essa precisão é algo tão irritante , mas é só o que eu acho . Quando digo isso para outras pessoas elas acham absurdo eu não gostar de horários de metrô . E eu acho um absurdo elas pensarem que o que falo tem a ver com horários de metrô . Enfim...
…
O trem parou . Eu como sempre não entro . Noto que alguém desce , mas não preocupo em olhar .Tiro minha gaita da mochila a coloco na boca . A melodia se mistura ao som do atrito do trem com os trilhos . Alguém senta a meu lado . Hoje não estou muito afim de conversar . Quero só tocar . Dedos finos e longos tocam a mecha de cabelos vermelhos que caem sobre meu olho esquerdo . Uma voz conhecida faz dueto com minha gaita .
-Olá ! Posso escutar tua música ? …
-Depende . Que tipo de música tu gosta ?
-Hum ..nenhuma em especial .
-Isso quer dizer que posso então tocar qualquer coisa ?
-Não.
-Não!?Como não?
-Sugiro que seja uma canção ELCANIAFOCCA .
-Tudo bem Sir. Lofe . Juntos ?
-Claro .
Do bolso de teu casaco saiu um instrumento bem diferente . Parecia um contrabaixo . Quando teus dedos dedilharam as cordas eu podia dizer que o som “parecia” com o de Cravo.E de novo a melodia que havia escutado naquele dia, naquele café -cabaré.
…
-Sabe ? … o último trem passa daqui trinta e cinco minutos .
-Eu estou esperando o trem que passa do outro lado .
-Não há trilhos do outro lado .
-Bom , pode ser que eu esteja na estação errada …
-Ou não . Afinal sempre pode existir estações improváveis .
….
A Cidade Luz nunca adormece como se esperasse sempre por uma nova História .
…
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
dAs PaLaVrAs e SeUs SeNtIDoS...
Em minha pequena ignorância pergunto :
Qual é o animal que empaca ?
........
Na resposta , ouço , no peito a realidade dos sentimentos e o que resta a mim é o Silêncio .
..........
E insisto em citar Pessoa...... e sua poesia de ser .
.........
TABACARIA
Alvaro de Campos
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.













