domingo, 5 de setembro de 2010

Friends ....



Para o amigo que me ensinou que
a História é divertida e saborosa :
C.M.D.
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Das Estações
ou
Da Impossibilidade dos Acasos




Chego a estação do metrô , mais uma madrugada .
….
Lembro do dia em que desci naquela estação de trem no meio do nada. Era fim de tarde de Outono e o céu avermelhado anunciava a noite que seria fria . Eu não sabia ao certo porque fui ali , apesar de ter reservado um quarto de pensão . Mas talvez soubesse , queria ficar só , coisas de crise depressiva , constante , mal da contemporaneidade . Tu saberia disso por mim. Naquela estação , deturpando a tendência de acharmos certos encontros mero acaso , tu esperava alguém .

O trem seguiu . Eu olhei a estação emoldurada entre montanhas verdes . Uma estrada de terra levava ao vilarejo próximo , eu sabia disso porque havia impresso o mapa pelo Google Maps . Achei estranho tu ali sentado . Imaginei que esperava o trem . Mas tu não entrou nele . Apertei meu casaco vermelho e comecei a descer as escadas da estação , não estava disposta a conversar . Não sei ao certo porque , mas , fiquei preocupada . O próximo trem passaria somente em dois dias . Talvez tu não soubesse .


-Olá . Não sei se sabe , o próximo trem só virá daqui a dois dias .
Tu tirou o capuz que compunha a capa de lã cinza que usava deixando aparecer cabelos negros lisos e olhos que sorriam como seus lábios .
-Eu espero o trem que vai pro outro lado, mas perdi minha caderneta de horários . Tenho boa memória para Histórias , mas para números não .
Estranhei tua fala, olhei para o outro lado da estação .
-Não há trilhos do outro lado .
-Pode ser que eu esteja na estação errada ….mas é que …

“ Definitivamente eu não devia ter parado pra conversar com esse cara “ , pensei .

-Ok. Tudo bem então. Vou indo . Tchau.



Desci as escadas e peguei a estrada de terra . Teria que caminhar um pouco , era melhor apressar o passo já que a lua cheia já desenhava contornos pálidos no céu . Havia muitas árvores frutíferas ao longo do caminho e foi sentado embaixo de uma macieira que eu te vi de novo .

-Olá ! Tu disse .

Achei esquisito tu ter chegado ali antes de mim … provavelmente deveria conhecer algum atalho , embora atalhos por ali fossem um tanto quanto improváveis . Notei que a estrada bifurcava numa encruzilhada , havia uma tabuleta indicando o vilarejo para onde eu estava indo e uma outra com um nome que eu não conseguia ler .

- Althein .

Tu levantou no momento exato que uma maçã despencava e caia sobre a pedra onde estava sentado . Ficou ao meu lado .

-Obrigado . Tu é guia desta região ?

-Não, não sou guia .

-Como sabe o que está escrito ali ? Não dá pra ler .

Tu caminhou até a tabuleta e soletrou : A L T H E I N .

-Não consegue ler isso ?

-Não . E acho que tu acabou de inventar esse nome . Não há nada escrito aí . E tem outra , não lembro de ter visto algum outro vilarejo próximo ao que estou indo . Mas tudo bem . Eu sigo por aqui . Até mais .

-Posso ir contigo ?

-Pra onde tu tá indo ? Perguntei .

-Não sei.

-Se não sabe onde vais é melhor pensar sobre . Comecei a caminhar . Tu alcançou meu passo .

-Já pensei . Se não há lugar para onde ir qualquer lugar está bom .

Disse isso sorrindo como se fizesse todo o sentido do mundo , eu pensei que tu era uma cara muito sarcástico , embora , não sei ao certo porque achei engraçado o teu jeito de pensar . Tu queria mesmo seguir comigo , e eu não tinha como fugir disso .



A estrada pareceu bem mais longa que a indicada pelo mapa . Caminhei com pressa . Queria tirar as botas , jogar a mochila num canto , tomar um banho , dormir . Tu não deixou que eu prosseguisse com meu plano de não conversar . Perguntou-me coisas, coisas, coisas . Algumas eu respondia , outras não . Comecei a reparar nos teus modos , na tua forma de falar . Fiz algumas perguntas também e as respostas foram estranhas , tipo sobre comidas fumegantes que eram servidas nos “ restaurantes” , na verdade a palavra que tu usava era estalagem , de sua cidade e que não queimavam a língua , cervejas com sabor de cafeína mentolada , roupas tecidas com fios de memórias . Reparei na tua vestimenta . O casaco que vestia , e eu pensei ser cinza , na verdade era de uma cor que eu não conseguia definir por comparação , lembro que pensei em livros antigos , aqueles feitos de tiras de tecido , olhando mais perto pude ver coisas escritas em línguas que eu não conhecia , ele cobria todo seu corpo deixando aparecer somente teus sapatos , que eram bem diferentes também ,pareciam ter saído das mãos de um artesão medieval , eu pensei assim , por lembrar das visitas em museus nos tempos do colegial .


Seguimos e eu deixei de acreditar em mapas , definitivamente . Alcançamos a entrada do vilarejo quando as estrelas começavam a montar rotas de fuga no céu . A lua cheia era nossa lanterna . Ao lado da placa de boas vindas havia uma casa que parecia abandonada, de bela arquitetura , mas com ares que só o tempo e o descuido poderiam dar .

-Vamos entrar ? Tu sugeriu .

Eu achando bem estranha tua proposta …

-Acho melhor não , vou seguir . Há uma pensão esperando por mim

( eu acho ) , com água quente e cama .

Ao terminar de falar isso notei que tua fisionomia modificou . Ficou séria . Não sei ao certo porque mas não senti medo . Havia em teu semblante um misto de pesar , nostalgia e esperança .

-Eu entro e vejo como tudo está e te chamo – Tu disse .

-Acho melhor seguir . Porque tu não vem comigo e passa a noite lá também .

-Eu não posso prosseguir , não posso entrar neste vilarejo e preciso te entregar algo antes de partir .

-Entregar algo …?...

Minha pergunta ficou bailando no ar . Tu entrou na casa . E eu olhando as estrelas , não sei ao certo porque , decidi te esperar . Um meteoro cruzava a atmosfera e eu cheguei a pensar que em algum lugar deste planetinha uma cratera se abriria para receber uma dama em trajes prateados . Tua voz ecoou pela estrada.

-Pode entrar .


Pelas janelas agora eu via um tom amarelado que indicava ter luz dentro dela . Tu teria velas nos bolsos ? Quando entrei tive a sensação que havia mais coisas entre o céu e a terra que minha vã filosofia poderia imaginar . Havia velas espalhadas em candelabros antigos por toda a sala que era grande , bem grande , lembrava um café, um cabaré , ou sei lá o que. Havia um pequeno palco ao fundo e cortinas vermelhas pendiam do teto . Um cheiro adocicado no ar , pequenas mesas com cadeiras em madeira , um balcão com inúmeras garrafas cheias de líquidos coloridos , potes com estranhos grãos e outras coisas que eu poderia comparar a bombons ou guloseimas , mas que na verdade eram diferentes de tudo o que eu já havia visto . Uma melodia ecoava no ar , algo parecido com ….bem, não sei . Tu estava do lado de dentro do balcão e preparava algo numa taça , uma fumaça avermelhada saía dela .

-Que lugar é esse ?!

-O que lhe parece ?

-Não sei . Um café?... um teatro antigo ?... um cabaré ?...

-Na verdade eu nunca dei nome a esse lugar. Prefiro assim porque dessa forma cada visitante pode dar-lhe o nome que melhor convém .

-Isso é seu ?

-As vezes sim , as vezes não . Passo longos tempos sem vir aqui.Até mesmo esqueci qual foi a última vez que estive aqui .

-Eu não estou entendendo . ..




Tu colocou a taça no balcão e preparou outra .Sentou-se a meu lado, propôs um brinde e começou a beber . Eu esperei para ver se a fumaça avermelhada parava de evaporar .Tu disse que ela não pararia até que a última gota fosse bebida . Arrisquei … era delicioso , um delicioso um tanto quanto difícil de ser definido . Parecia um café , mas com alguma coisa a mais , não como avelã , ou chocolate, ou menta.Quando terminei a fumaça não mais existia e o sabor permaneceu em minha boca , pelo que lembro , por muito tempo .


 
-O que é isso . È Kopi Luwack? Perguntei .

-Celoaffe.

-Celo... o quê ?

Tu apontou para um pote cheio de grãos dourados . E minha fisionomia provavelmente era uma enorme interrogação . Tu começou a gargalhar , creio, achando graça da minha “ ignorância “ . Nunca havia ouvido falar daqueles grãos . Meu pequeno café , começava a servir algumas especiarias , algumas que eu estava conhecendo através de conversas pela rede mundial com outros baristas .Não era nada fácil ter um café naquela cidade tão transbordante de Histórias , muita concorrência , apesar de tentar receitas exóticas , elas nem sempre agradavam aos fregueses . Os amigos no entanto sempre se deliciavam com elas ...o que eu não entendia .

- O que é Kopi Luwak?

Tua pergunta fez com que eu voltasse de minhas divagações . Eu havia “ fugido “ da cidade para tentar encontrar inspiração para novas receitas .

-É um café raro . Tu nunca ouviu falar ?

-Talvez ...sim , não sei . Como é o gosto dele .

-Ainda não sei . De onde vem esses grãos?

-De um lugar bem distante daqui .

-Tu vende ?

-Não .

-Exclusividade ?!...

-Não .

-Não entendi!

-Não entendeu porque eu ainda não expliquei .

Tive a impressão que já era alta madrugada pois lá fora o bréu era mais intenso . Olhei em meu celular e achei estranho, quando entrei na casa era 19:00 e ainda continuava a ser 19:00 . Provavelmente o relógio havia parado de funcionar , pensei .


Tu caminhou até um pequeno armário que ficava próximo ao palco . Tirou de dentro dele um livro e voltou a sentar a meu lado . Colocou o livro sobre o balcão . Notei que a capa era era de couro curtido com letras queimadas . Eu não sabia lê-las .

-È teu . Tu disse .

Peguei o livro e abri . Era um “ ótimo” presente ...um livro antigo numa língua que eu desconhecia .

-Obrigado , mas não sei ler o que está escrito . É algum dialeto da região ?

-Filinelguaca.

-Hã!... Interessante .

Eu havia aprendido esta tática com um velho amigo , ele sempre dizia: “ quando tu não entender o que está sendo falado diga interessante assim a pessoa que fala não se sentirá ofendida ou desconcertada por falar de um assunto não compreensível e tu não assumirá o papel de ignorante “.Era uma tática social bem aplicável naquele momento . Tu sorriu como se adivinhasse meu pensamento , disse :

-Não se preocupe . Em breve tu conseguirá ler . É um livro de receitas , muito , muito antigo .

Neste momento , tu começou de fato a História .



-Eu estava te esperando na estação faz alguns dias. Quase pensei ter vindo para a estação errada , mas não , só havia chegado um pouco antes da hora . Três dias . Vim até aqui e dei um ajeitada para te receber . Tenho de partir antes que a madrugada termine . Aquele pote de Celoaffe é teu também e não se preocupe quando ele terminar vou providenciar para que haja reposição . Se quiser pode dormir aqui esta noite e procurar a estalagem amanhã já que o trem só volta mesmo daqui a dois dias .

Eu olhava em teus olhos enquanto falava tentando encontrar ali alguma explicação lógica para tua conversa .Será que tu era um maluco beleza ou um extraterrestre , ou sei lá ...

-Eu não estou entendendo tudo isso . Quem é tu afinal ?

Tu sorriu e disse :

-Não se preocupe com nomes . Nomes não dizem o que somos. Já tive tantos que mal consigo lembrar qual foi o último . Vamos nos encontrar outras vezes .Se quiser crie um nome para mim , se isso te ajuda , mas pense , sempre se reconhece um amigo ,independente do tempo que passe , ou das estradas que sigam .

-Ok. Tu disse que estava esperando por mim . Como sabia que eu viria para cá ? Eu não disse nada a ninguém .

Tu remexeu o bolso do casaco e tirou dele um caderno “ olhe consegui encontrá-lo !” . Eu tive a impressão que dos bolsos de teu casaco poderia sair qualquer coisa . Abriu o caderno e leu meu nome e nome da estação de trem onde desci, virou triunfante e disse :

-Viu esta aqui . Não erro porque minha memória está grafada .

Tu tocou na mecha de cabelos vermelhos que sempre caia sobre meu olhos esquerdo e falou :

-Foi muito bom te conhecer . Agora que nos tornamos amigos fica mais simples te encontrar . Adormeça , descanse . Desejo é que tudo seja saboroso , sempre .



Quando tu deixou a casa o sono tomou conta de meus sentidos , como se aquele café fosse o mais potente dos calmantes . Adormeci .


Um sol amarelado entrava pela janela de vidros quebrados . Eu acordei com a brisa que trazia o amanhecer . Estava no chão com minha mochila como travesseiro . Olhei a volta e tudo que havia antes que eu adormecesse não estava mais ali . A sala era poeira , restos de madeira queimada , cacos de espelhos . Mas para minha surpresa , duas coisas ainda estavam ali. O pote com os grãos dourados e o livro . Peguei o livro e notei que a espessura havia mudado . Abri . Havia uma página escrita na língua Filin...Filinelguaca e outra em Francês , todo o livro estava assim . Lembrei da tua promessa , que eu conseguiria lê-lo .
….


Voltei dois dias depois para a vida de “ sempre “ . O livro de receitas foi o ponto de partida para o novo cardápio de meu café . A especialidade do Petits Plaisirs era agora preparada com os grãos dourados e era um verdadeiro sucesso entre os frequentadores. Vez por outra uma transportadora deixava na porta da cafeteria , sempre pela manhã , potes com os grãos dourados . Um dia anotei a placa do furgão antes que ele saísse em disparada. Tentei encontrá-lo pelo Google , sem sucesso . Por fim desisti .




A estação do metrô deserta como sempre.

Escolho sempre o mesmo banco. Sento ali para tocar minha gaita. Faço isso nos últimos cinco anos ,depois que fecho o Petits , por volta das três da madrugada. Algumas pessoas deixam moedas perto de minha mochila , provavelmente pensam que eu toco para pedir trocados . Mas não . Os negócios vão bem e dinheiro não tem sido problema . As crises depressivas , voltam ,passam ,como sempre . Sei que não se pode ter tudo . Eu sempre pego as moedas e deixo para aquele senhor cego que carrega sua antiga vitrola e coloca discos de vinil para rodar enquanto as pessoas correm pelas escadas para alcançar os trens que partem . Estou procurando uma nova trilha para tocar no café . Lembrei daquela música que tocava naquela casa-café . Acho que nunca escutei nada parecido com ela . Senti saudade de tu Lofe. Foi esse o nome que lhe dei e espero que tu goste dele . Quando nos encontrarmos de novo eu te conto e tenho também outras Histórias para contar . O trem passou no mesmo e exato momento de todos os dias. Essa precisão é algo tão irritante , mas é só o que eu acho . Quando digo isso para outras pessoas elas acham absurdo eu não gostar de horários de metrô . E eu acho um absurdo elas pensarem que o que falo tem a ver com horários de metrô . Enfim...



O trem parou . Eu como sempre não entro . Noto que alguém desce , mas não preocupo em olhar .Tiro minha gaita da mochila a coloco na boca . A melodia se mistura ao som do atrito do trem com os trilhos . Alguém senta a meu lado . Hoje não estou muito afim de conversar . Quero só tocar . Dedos finos e longos tocam a mecha de cabelos vermelhos que caem sobre meu olho esquerdo . Uma voz conhecida faz dueto com minha gaita .

-Olá ! Posso escutar tua música ? …

-Depende . Que tipo de música tu gosta ?

-Hum ..nenhuma em especial .

-Isso quer dizer que posso então tocar qualquer coisa ?

-Não.

-Não!?Como não?

-Sugiro que seja uma canção ELCANIAFOCCA .

-Tudo bem Sir. Lofe . Juntos ?

-Claro .

Do bolso de teu casaco saiu um instrumento bem diferente . Parecia um contrabaixo . Quando teus dedos dedilharam as cordas eu podia dizer que o som “parecia” com o de Cravo.E de novo a melodia que havia escutado naquele dia, naquele café -cabaré.





-Sabe ? … o último trem passa daqui trinta e cinco minutos .

-Eu estou esperando o trem que passa do outro lado .
-Não há trilhos do outro lado .
-Bom , pode ser que eu esteja na estação errada …

-Ou não . Afinal sempre pode existir estações improváveis .



….


A Cidade Luz nunca adormece como se esperasse sempre por uma nova História .





























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