terça-feira, 7 de setembro de 2010

Do Baú I...



CAMA DE GATO




Ela caiu ali em meio ás árvores do parque . Não sentiu a queda. Não sabia ao certo se sua jornada teve início em uma galáxia com nome de deuses esquecidos , ou se viera de algum ponto mesmo da branca massa cósmica. Caíra , era um fato , aberta . O gramado do parque central da cidade estava muito verde em decorrência da chuva que resolvera , para a alegria dos seres clorofilados , fazer morada por ali . Caíra , numa posição muito diferente da qual estava acostumada . A queda naquela posição , meio que ao avesso trazia uma terrível e estranha constatação : sua existência era instável, como bailarinas na corda bamba . Os olhos que passavam pela avenida vez por outra a encarava , seu tom rosa era agradável às damas , mas todavia nem tanto agora depois das investidas do tempo , não estava isenta de sofrer com isso . Desbotara , em seu rosa e em seu tom azul . Quis pensar que não gostava de estar ali , exposta , aberta a todos os olhos . Mas não havia outro jeito , era vulnerável , isso era um fato . Não era capaz de mudar aquela situação . Não tinha vontade própria , se perdera da mão que lhe dava segurança , equilíbrio . Caíra ali , bem ali , entre as árvores do parque e não sabia a quanto tempo , provavelmente na última chuva , sim na última chuva era o mais provável . Mas quanto tempo fazia isso ? Um vento soprou . Quase pensou ser ele o responsável por estar ali . Mas afinal isso não tinha tanta importância agora . Alguma coisa se aproximava caminhando lentamente sobre as folhas úmidas que cobriam o chão do parque. Parecia negra e quase flutuava em seu leve andar . Não sentiu medo, afinal não tinha mesmo sensações .

Ele era acostumado a caminhar por ali , era sua casa .Não se lembrava ao certo se havia nascido ali entre as árvores do parque ou se fora levado para lá quando ainda era pequeno e indesejado . Reconhecia-se como parte daquele lugar , não pelo furo em sua orelha direita , mas pelos companheiros que junto com ele buscava sobreviver ali . O sol aparecia ,sem muita fúria , depois de muitos dias ausente . Podia sentir a umidade da terra nas folhas mortas espalhadas pela grama . Olhou através das grades que circundavam o parque e delimitavam seu território as pessoas que caminhavam apressadas . Notava que algumas estavam felizes , provavelmente por poderem caminhar sem se molhar . Outras não sorriam , nem choravam , eram as do tipo conformadas , por isso tanto o sol quanto a chuva não as afetava . Notava que vez por outra passava alguém bem triste , provavelmente porque gostava da chuva que não caia por agora . Abandonou seu posto de observação ao ver ali aquela estranha coisa caída entre as árvores . Aproximou-se com cautela sem saber ao certo se seria prudente chegar tão perto assim . Tocou de leve . Não houve reação . Deve ser inanimada pensou . Arriscou pular , nenhuma reação . Escolheu então ficar ali naquela criatura rosa para tomar seu banho de sol . Começou a limpeza de seu pêlo que ficou mais negro . Preto , era seu nome .Um nome não escolhido por ele , mas pelas pessoas que frequentavam o parque . Resolvera aceitá-lo porque era o preferido das pessoas pequenas que frequentavam as alamedas do parque em especial aos domingos . Ele gostava das pessoas pequenas ,não todas , mas uma boa parte delas . Gostou de sua nova cama , mantinha seu pêlo seco e quente e ele poderia ficar ali toda a tarde , ao sol . Mas o vento não tardou a trazer de volta a chuva para a cidade e ele precisava buscar um abrigo . Mas teve uma idéia . Enroscou-se em sua nova cama rosa .

Ela não sabia ao certo quem era. Como os filósofos que nunca arriscam colocar pontos finais caminhava pela vida . Passou pela movimentada avenida de sua cidade . A chuva voltara a cair e o ar úmido deixava um gosto de poesia e cores . A poesia escrita pelos amantes do choro prateado dos anjos e as cores por conta dos multicores guarda – chuvas . Ela olhou pelas grades do parque . Parou na cena um tanto quanto curiosa . Um gato negro enroscado em uma sombrinha rosa. É uma inusitada cama de gato, pensou . Sorriu para eles , para a chuva e continuou a caminhar .

Preto ficou ali no aconchego de sua nova cama .

Ela deixou que o estranho ser ali ficasse , e quase pensou que isso era bom .
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Sombrinhas sentem frio ?

Gatos tem medo de chuva ?













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